A inteligência artificial (IA) tem a possibilidade de influenciar o rumo da humanidade nos próximos anos. Hoje em dia ela está presente em diversas atividades da nossa vida: nos resultados dos nossos exames médicos, nas decisões financeiras, nas recomendações de vídeos e música (youtube, netflix, spotify etc) , nas nossas redes sociais, nas propagandas, e em diversos outros lugares. Além disso, existem diversas universidades, governos e empresas privadas investindo milhões em pesquisa e desenvolvimento nessa área. Atualmente, com o surgimento do ChatGPT, fomos surpreendidos com a sua capacidade de executar tarefas e de responder perguntas que só eram possíveis por seres humanos especializados. Isso mostra que estamos vivendo uma nova revolução industrial e que as máquinas, tal como o ChatGPT, terão um papel primordial nas nossas vidas. Existe um debate enorme sobre esse assunto e os principais pontos são: As máquinas irão nos tornar obsoletos? A IA irá trazer os benefícios, assim como foi com a prensa móvel, ou estamos diante de uma nova invenção maligna, como a bomba atômica? Poderemos reverter as consequências? É importante dizer que já existem grupos que se posicionaram contra e não querem o seu desenvolvimento e outros que acham que teremos que encontrar caminhos para tirar o melhor proveito dessa inovação.
Um dos críticos é o Future of Life Institute, que pede em sua carta aberta uma pausa de 6 meses na pesquisa, experimentação e treinamento dos modelos avançados de IA. Caso não seja feita, ela sugere que os governos estabeleçam uma suspensão (moratória). A carta conta com nomes de peso como Yuval Noah Harari, Steve Wozniak e Elon Musk. A principal preocupação está na capacidade dos líderes técnicos gerenciarem os riscos e de serem responsáveis. Os principais riscos apontados são: a IA apresentar de forma assertiva informações falsas ou enganosas, de prover recomendações enviesadas, de serem furtadas e utilizadas por pessoas mal-intencionadas e de impactarem de forma negativa o mercado de trabalho. Além disso, existe a preocupação das empresas não serem tão cuidadosas quando forem ameaçadas pelos seus concorrentes. Foi o que alertou o professor Geoffrey Hinton, um dos padrinhos da IA, ao dar uma entrevista para o New York Times após pedir sua demissão do Google. Outros especialistas como a Association for the Advancement of Artificial Intelligence são mais moderados. Em sua carta aberta, eles esclarecem que o avanço da tecnologia traz preocupações, mas os riscos podem ser mitigados com o uso de padronizações, leis, regulamentos e até mesmo outras tecnologias complementares. Além disso, sugerem uma maior participação da comunidade de pesquisadores em temas relacionados ao uso ético, seguro e confiável da IA e de estudos dos impactos de curto e longo prazo na sociedade. Já Bill Gates, em seu artigo “The Age of AI has Begun”, diz que a IA, como qualquer outra invenção, poderá ser utilizada para o bem ou para o mal e que os governos precisam trabalhar com o setor privado em formas de limitar os seus riscos.
Nos EUA, o tema também está sendo debatido pelo congresso com a ajuda de especialistas no setor. Entre eles, o criador da ferramenta ChatGPT, Sam Altman. As principais preocupações estão sendo o risco da IA afetar o mercado de trabalho e o seu uso indevido nas eleições. Também existe a dúvida de se criar uma agência de fiscalização e a aplicação de licenças em alguns cenários de uso. Já a União Européia está avançando em seu projeto de regulamentação. Pelo fato dela possuir um enorme mercado consumidor, existe a expectativa dela liderar e se tornar referência na elaboração de leis que busquem a proteção dos usuários dessa nova tecnologia. Foi o que aconteceu por exemplo com as leis relacionadas à proteção de dados. No Brasil, o tema está sendo discutido através de um projeto de lei que pretende ser o marco regulatório para o uso da inteligência artificial. O país também é signatário do documento da OCDE que recomenda princípios éticos para a administração responsável dessa tecnologia.
Embora a IA apresente riscos para sociedade, ela é a fonte de novos avanços em diversos campos da ciência, medicina, meio ambiente e engenharia que irão proporcionar para a humanidade a solução de diversos problemas. Os governos precisam criar leis e regulamentos que protejam os direitos fundamentais das pessoas e a sua privacidade, no entanto não podem criar barreiras para a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico. Precisamos de mecanismos que aumentem a transparência, a prestação de contas e a responsabilização. Tudo isso com embasamento técnico, político e em conjunto com a sociedade.